Ânimo à luta na <i>Bonvida</i>
Os últimos contactos com credores, com o IAPMEI e com o Governo resultaram em compromissos de apoio à viabilização, mas os trabalhadores da Porcelanas Bonvida persistem na luta, como sua melhor garantia.
Este é um forte exemplo para todos os trabalhadores
A vigília, à porta da fábrica, na Batalha, mantém-se desde 5 de Setembro, quando a administração comunicou, no regresso de férias, que dispensava os trabalhadores até daí a três semanas. A «suspensão» foi depois prorrogada e acabou por ser apresentado um processo de insolvência. Só a unidade e a pronta resposta dos trabalhadores – mulheres, na sua maioria – impediram que a Bonvida, com encomendas e projectos que lhe garantiam um futuro tranquilo, já estivesse hoje encerrada.
Nesta luta pela viabilização da fábrica e pela garantia dos postos de trabalho, o pessoal da Bonvida tem contado com o apoio do seu sindicato e com a solidariedade activa do PCP – tanto no local, como para levar a sua voz a quem tem o poder e a obrigação de fiscalizar, primeiro, e de garantir a justa solução, depois de não ter evitado o problema.
Um momento de crucial importância para o futuro da empresa e dos trabalhadores, bem como do concelho e da região, vai ser a assembleia de credores, marcada para 17 de Janeiro. Os esforços – mantendo-se a vigilância das instalações, dos equipamentos e do produto acabado – são agora dirigidos para a construção de um sólido plano de viabilização e para ganhar votos a favor dessa solução.
Foi com esse objectivo que, no dia 21 de Dezembro, uma delegação dos trabalhadores da Bonvida veio a Lisboa. Reuniram-se com a Transgás, com o IAPMEI e com o Ministério da Economia e do Emprego, e de todos ouviram afirmações que dão ânimo para o prosseguimento da luta e para manter a vigília, dia e noite, mesmo na noite de Natal ou na próxima noite de de passagem de ano.
Mas os compromissos não foram fáceis de obter. Nos gabinetes da Rua da Horta Seca, fizeram os representantes dos trabalhadores esperar mais de uma hora. Os restantes elementos da delegação, apercebendo-se da demora, romperam o impedimento da Polícia e deslocaram-se da Praça Luís de Camões para a porta do Ministério, onde exibiram uma faixa e gritaram «trabalho – sim, desemprego –
«Para todos os trabalhadores, para dar força a todas as demais lutas, este é um exemplo muito importante», comentou Rita Rato, que desta vez levou ao pessoal da Bonvida a solidariedade do Grupo Parlamentar comunista, onde habitualmente o tema tem sido acompanhado por Bruno Dias.
Pela Comissão Executiva da CGTP-IN, Arménio Carlos transmitiu uma fraternal saudação e incentivou ao prosseguimento do combate.
Há ouro e bandidos
Outra batalha, nesta luta que já vai fazer quatro meses, tinha ocorrido na antevéspera, dia 19, como nos relataram Gracinda Costa e Luís Filipe Santos, no início da concentração no Camões. Intitulando-se administrador da empresa e fazendo-se acompanhar de um suposto responsável de outra firma e de alguns «pedreiros», o marido da patroa (uma de quatro irmãos que serão os proprietários da Bonvida) logrou expulsar o piquete do hall que tem servido de abrigo nas últimas semanas. Chamada a GNR, esta acabou por mandar embora o suposto patrão e seus acompanhantes, por falta de legitimidade para ali permanecerem. O próprio administrador da insolvência confirmou que os trabalhadores podem manter-se naquele posto.
As instalações e equipamentos, renovados há cinco anos com financiamentos da UE, e os produtos armazenados e prontos para comercializar representam um grande valor, para garantir os direitos dos trabalhadores e as condições de retoma da produção. E, como admitem Gracinda e Luís Filipe, são também a principal razão das manobras dos patrões, que apenas procurariam liquidar a Bonvida para a substituir por outra firma, com menos trabalhadores e recorrendo a trabalho temporário, para assim aumentarem os lucros.
O crescimento da dívida aos trabalhadores (deixaram de receber subsídios de férias e de Natal desde 2007), a instituições bancárias (BES e Caixa Agrícola), à fornecedora de matéria-prima e à Transgás não pode ser atribuído a dificuldades de mercado (é um produto de grande procura e poucas empresas produzem porcelana, em Portugal e na Europa). A confirmação desta posição dos trabalhadores está na carteira de clientes e encomendas, à data do intempestivo encerramento, e no facto de já haver interessados em investir na Bonvida, no quadro de um plano de viabilização.
Até o tesouro ficar a salvo e o futuro estar assegurado, a luta vai manter-se, com ânimo redobrado pelos resultados alcançados.